Impedimentos do Juiz no CPC: Entenda Quando o Magistrado Não Pode Atuar

Os impedimentos do juiz no CPC são regras que garantem a imparcialidade da Justiça. Entenda, de forma simples e prática, quando o magistrado deve se afastar do processo segundo o Código de Processo Civil de 2015.
Impedimentos do Juiz no CPC

O que você verá neste post

Introdução

Você já se perguntou em quais situações um juiz não pode julgar um processo? O Código de Processo Civil de 2015 (CPC) traz regras claras sobre os impedimentos do juiz, justamente para preservar a imparcialidade e garantir que a decisão judicial seja realmente justa.

A imparcialidade do magistrado é um dos pilares do Estado Democrático de Direito e uma exigência constitucional expressa no artigo 5º, inciso XXXVII, da Constituição Federal. Afinal, um processo só é legítimo quando o juiz atua sem interesse próprio, sem vínculos pessoais com as partes e sem influências externas.

O CPC/2015 aprimorou significativamente o tratamento do tema, detalhando as hipóteses em que o juiz deve se afastar da causa, seja por motivo de relação familiar, interesse direto ou atuação prévia no mesmo processo. Essas regras não existem para “limitar” o magistrado, mas sim para proteger o próprio sistema judicial contra a parcialidade e assegurar a confiança pública nas decisões.

Neste artigo, você vai entender, de forma simples, prática e fundamentada, quando o juiz é impedido de atuar, quais são as consequências de uma atuação indevida e como o CPC de 2015 consolidou essas garantias processuais.

Imparcialidade Judicial no CPC

A imparcialidade judicial é o ponto de partida para entender os impedimentos do juiz. Trata-se da exigência de que o magistrado não tenha qualquer vínculo ou interesse que possa comprometer sua neutralidade ao decidir.

A imparcialidade é um princípio constitucional implícito no direito brasileiro e se manifesta como garantia fundamental das partes. Está diretamente ligada ao devido processo legal (art. 5º, LIV e LV, CF) e ao direito a um juiz natural e independente.

1. A Imparcialidade como Pilar da Função Jurisdicional

Julgar é um ato de poder, e todo poder precisa de limites. A imparcialidade funciona como o limite ético e jurídico da função jurisdicional. O juiz não é parte, não é adversário, nem aliado: ele é o garantidor da legalidade e do equilíbrio no processo.

2. Imparcialidade Objetiva e Subjetiva

A doutrina distingue duas formas de imparcialidade:

  • Objetiva, relacionada à posição institucional do juiz e às circunstâncias externas do processo (por exemplo, vínculo familiar com as partes).

  • Subjetiva, ligada à convicção pessoal do magistrado, a possíveis simpatias ou antipatias.

Enquanto a imparcialidade objetiva é verificada pelas regras de impedimento, a subjetiva é regulada pelas hipóteses de suspeição.

3. O CPC/2015 e o Fortalecimento da Imparcialidade

O novo Código de Processo Civil reforçou o compromisso ético do magistrado ao consolidar, no artigo 144, um rol ampliado de situações que caracterizam impedimento. O objetivo é prevenir conflitos de interesse antes que afetem o julgamento, tornando o processo mais transparente e previsível.

4. Relação com o Princípio do Juiz Natural

A imparcialidade também se conecta ao princípio do juiz natural, que assegura que ninguém será julgado por autoridade incompetente ou parcial. Assim, quando um juiz é impedido de atuar, o afastamento não é uma punição, mas uma garantia de que o processo seguirá pelas mãos de outro magistrado legítimo.

5. A Imparcialidade e a Confiança Pública na Justiça

Por fim, a imparcialidade tem uma dimensão simbólica: a confiança da sociedade no sistema judicial. Quando há transparência na atuação do juiz e respeito às regras de impedimento, o cidadão enxerga a Justiça como uma instituição neutra, íntegra e confiável.

Impedimentos do Juiz no CPC

Antes de analisar cada hipótese prevista no Código, é essencial compreender o conceito jurídico de impedimento do juiz. O CPC/2015, em seu artigo 144, estabelece as situações em que o magistrado não pode atuar em determinado processo por existir um vínculo objetivo que possa comprometer sua imparcialidade.

Em outras palavras, o impedimento ocorre quando há uma relação direta entre o juiz e o objeto do processo, ou com as partes envolvidas, de modo que a própria lei presume que não há condições de julgamento imparcial, ainda que não exista má-fé ou parcialidade concreta.

1. Finalidade dos Impedimentos

A principal finalidade dessas regras é proteger o princípio da imparcialidade, evitando que o juiz julgue causas nas quais tenha algum interesse pessoal ou institucional. É uma forma de garantir que o processo transcorra com transparência, igualdade e credibilidade.

2. Fundamento Legal e Estrutura do Art. 144 do CPC

O artigo 144 do CPC de 2015 lista dez incisos e um parágrafo único, enumerando hipóteses específicas de impedimento. Essas hipóteses abrangem vínculos familiares, profissionais e funcionais, buscando abranger tanto as relações diretas quanto as indiretas entre o magistrado e o caso.

3. Impedimento x Suspeição

Embora muitas vezes confundidos, impedimento e suspeição são institutos distintos.

  • Impedimento: ocorre em situações objetivas, legalmente definidas, nas quais a parcialidade é presumida pela lei.

  • Suspeição: decorre de circunstâncias subjetivas, relacionadas à conduta pessoal ou emocional do juiz (como amizade íntima ou inimizade).

Em síntese, o impedimento é incontornável e obrigatório, enquanto a suspeição é arguível e dependente de prova.

4. Caráter Público e Intransigível do Impedimento

O impedimento pode ser reconhecido de ofício pelo próprio magistrado ou alegado pelas partes. Por se tratar de matéria de ordem pública, não pode ser relevado por conveniência. Caso o juiz atue mesmo impedido, seus atos são nulos de pleno direito, conforme entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

5. Relação com a Ética e a Responsabilidade Judicial

Além do aspecto jurídico, o impedimento tem natureza ética. Ele expressa o dever moral de abstenção do magistrado em situações que possam comprometer a confiança pública. O cumprimento dessa regra fortalece o respeito à magistratura e reforça o princípio republicano da separação entre o poder de julgar e os interesses pessoais.

Casos de Impedimento Previsto no Art. 144 do CPC

O artigo 144 do Código de Processo Civil enumera as hipóteses objetivas de impedimento do juiz, ou seja, situações em que a própria lei presume a falta de imparcialidade.

Essas hipóteses abrangem relações pessoais, profissionais e patrimoniais que possam afetar — ou aparentar afetar — a neutralidade do magistrado.
Vamos analisar cada uma delas com base no texto legal.

1. Inciso I – Quando o Juiz Já Interveio no Processo

I – em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha.

Esse inciso impede o juiz de julgar processos nos quais ele tenha participado anteriormente, sob qualquer função processual. A vedação alcança situações em que o magistrado atuou como:

  • Advogado (mandatário) de uma das partes.

  • Perito judicial, elaborando laudo técnico.

  • Membro do Ministério Público, emitindo parecer.

  • Testemunha, prestando depoimento.

🔹 Exemplo prático: um juiz que, antes de ingressar na magistratura, atuou como advogado de uma das partes em um processo semelhante não pode julgar o mesmo caso.

A razão é evidente: quem já participou do processo em outro papel não pode julgar com distanciamento, sob pena de violar o princípio da imparcialidade.

2. Inciso II – Quando Já Decidiu em Outro Grau de Jurisdição

II – de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão.

Trata-se do impedimento por atuação prévia em instância diversa. O juiz não pode reapreciar a mesma causa se já proferiu decisão em outro grau de jurisdição (por exemplo, atuou no processo como desembargador e depois como juiz de primeiro grau, ou vice-versa).

🔹 Exemplo prático: um magistrado que participou do julgamento de uma apelação em tribunal não pode, depois, atuar como juiz de execução no mesmo processo.

Essa regra assegura o duplo grau de jurisdição efetivo, evitando que o mesmo julgador reanalise sua própria decisão.

3. Inciso III – Quando Há Parentesco com Advogado, Defensor ou Membro do MP

III – quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive.

Esse inciso busca evitar o conflito decorrente de relações familiares com profissionais atuantes na causa. O juiz é impedido quando seu cônjuge, companheiro ou parente até o terceiro grau atua como advogado, defensor público ou membro do Ministério Público no processo.

🔹 Exemplo prático: o juiz é impedido se o advogado da parte for seu irmão, tio, sobrinho, genro ou sogro.

O § 1º complementa essa regra, esclarecendo que o impedimento só existe se o advogado já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz, evitando que o impedimento seja fabricado artificialmente após a designação do magistrado.

4. Inciso IV – Quando o Juiz ou Parente é Parte no Processo

IV – quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive.

Trata-se da hipótese mais evidente de impedimento: o juiz não pode julgar processo que envolva a si mesmo ou familiares próximos. Essa vedação decorre diretamente do princípio da moralidade e do devido processo legal.

🔹 Exemplo prático: um magistrado é impedido de julgar ação em que sua irmã figure como autora, mesmo que a matéria não envolva interesse direto dele.

5. Inciso V – Quando o Juiz É Sócio ou Dirigente de Pessoa Jurídica Envolvida

V – quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo.

Aqui o impedimento protege a imparcialidade econômica e institucional. Se o juiz tem participação societária ou exerce função de gestão ou administração em empresa que é parte no processo, presume-se a parcialidade.

🔹 Exemplo prático: o juiz que é sócio de uma empresa de tecnologia não pode julgar ação em que essa empresa é ré, ainda que a participação societária seja pequena.

6. Inciso VI – Quando o Juiz É Herdeiro Presuntivo, Donatário ou Empregador

VI – quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes.

Esse inciso aborda relações patrimoniais que podem gerar interesse indireto no processo.

  • Herdeiro presuntivo: o juiz que espera herança de uma das partes.

  • Donatário: aquele que recebeu ou pode receber doação de uma das partes.

  • Empregador: o juiz que emprega uma das partes (ex.: sua secretária move ação de indenização).

🔹 Exemplo prático: um juiz é impedido se o réu for seu funcionário doméstico ou se ele for herdeiro de uma das partes em disputa sucessória.

7. Inciso VII – Relação de Emprego com Instituição de Ensino Envolvida

VII – em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços.

Esse impedimento é relativamente recente e reflete a realidade moderna da magistratura. O juiz não pode julgar ação em que seja professor, consultor ou prestador de serviços da instituição de ensino parte no processo.

🔹 Exemplo prático: um juiz que leciona em uma universidade privada não pode julgar processo em que essa universidade figure como ré.

8. Inciso VIII – Cliente do Escritório do Cônjuge ou Parente

VIII – em que figure como parte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório.

Esse inciso busca evitar influência indireta na atuação judicial. Mesmo que o cliente esteja sendo representado por outro advogado, o juiz é impedido se a parte for cliente do escritório de seu familiar.

🔹 Exemplo prático: o juiz é impedido de julgar ação em que o autor é cliente do escritório de advocacia do qual seu cônjuge é sócio, ainda que outro advogado atue no caso.

O § 3º reforça essa regra, ampliando o impedimento para mandato conferido a membro de escritório que tenha advogado parente do juiz, mesmo que ele não atue diretamente na causa.

9. Inciso IX – Quando o Juiz Promove Ação Contra a Parte ou Advogado

IX – quando promover ação contra a parte ou seu advogado.

Essa hipótese trata de conflito processual direto. Se o juiz é autor de ação contra a parte ou contra o advogado que atua no processo, presume-se que não há condições de julgamento imparcial.

🔹 Exemplo prático: um juiz que move ação de danos morais contra um advogado não pode julgar processo em que esse profissional atue.

A regra busca preservar a harmonia institucional e evitar retaliações inconscientes ou aparentes.

10. Parágrafos do Art. 144 – Regras Complementares

§ 1º Na hipótese do inciso III, o impedimento só se verifica quando o defensor público, o advogado ou o membro do Ministério Público já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz.
👉 Evita o chamado “impedimento de ocasião”, isto é, a criação artificial de vínculo posterior apenas para afastar o magistrado.

§ 2º É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento do juiz.
👉 Impede a manipulação intencional do processo para criar situações que afastem o juiz legitimamente designado.

§ 3º O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado parente do juiz, mesmo que não intervenha diretamente no processo.
👉 Amplia a proteção, considerando a relação institucional entre o advogado e o escritório.

11. Síntese dos Casos de Impedimento

Em resumo, o CPC de 2015 ampliou e detalhou as hipóteses de impedimento para garantir que nenhuma relação pessoal, econômica ou profissional possa comprometer a imparcialidade judicial. O rol do art. 144 é taxativo, e qualquer atuação em desacordo com ele gera nulidade absoluta dos atos processuais.

Essa estrutura normativa representa um avanço em relação ao CPC de 1973, consolidando a imparcialidade como valor jurídico e ético essencial à função jurisdicional.

Diferenças entre Impedimento e Suspeição

Os termos impedimento e suspeição frequentemente aparecem juntos no estudo do CPC, mas possuem naturezas distintas e produzem efeitos jurídicos diferentes. Ambos tratam da imparcialidade do magistrado, porém sob perspectivas complementares.

Enquanto o impedimento está ligado a fatores objetivos, como vínculos familiares ou interesses materiais, a suspeição se refere a aspectos subjetivos, relacionados à conduta ou ao estado emocional do juiz diante das partes ou da causa.

1. Natureza Objetiva do Impedimento

O impedimento é uma presunção absoluta de parcialidade. Ou seja, a lei entende que, diante de determinadas circunstâncias (como parentesco, interesse direto ou atuação anterior), o juiz não pode julgar, independentemente de intenção.

O artigo 144 do CPC regula essas hipóteses de forma taxativa, e a atuação do juiz impedido gera nulidade absoluta dos atos processuais.

2. Natureza Subjetiva da Suspeição

Já a suspeição está prevista no artigo 145 do CPC e decorre de situações mais pessoais, como amizade íntima, inimizade capital, interesse moral, conselho ou presente recebido. 

Nesses casos, a parcialidade não é presumida pela lei, mas pode ser arguida pelas partes, que precisam demonstrar o risco de comprometimento da neutralidade judicial.

3. Procedimento Distinto para Cada Caso

A arguição de impedimento pode ser feita de ofício pelo juiz ou por qualquer parte interessada, a qualquer tempo, por se tratar de matéria de ordem pública. Já a suspeição deve ser alegada no prazo de 15 dias, contados do conhecimento do fato, e instruída com provas, conforme o art. 146 do CPC.

4. Efeitos Processuais

Os efeitos também diferem:

  • O impedimento gera nulidade absoluta dos atos praticados.

  • A suspeição, se reconhecida, leva à substituição do magistrado, mas não necessariamente invalida os atos anteriores.

5. Fundamentação Doutrinária e Jurisprudencial

Autores como Fredie Didier Jr. (2023) e Alexandre Freitas Câmara (2022) reforçam que essa distinção é essencial para preservar a confiança no Judiciário. 

A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça também adota essa diferenciação, reconhecendo que o impedimento tem caráter mais grave e que sua violação fere o princípio do juiz natural.

Consequências da Atuação de Juiz Impedido

A atuação de um juiz impedido é uma das irregularidades mais graves no processo civil, pois fere diretamente a imparcialidade e a validade dos atos processuais. 

O CPC de 2015 foi claro ao prever sanções severas para essa situação, justamente para desestimular condutas que coloquem em dúvida a lisura das decisões judiciais.

1. Nulidade dos Atos Processuais

Todos os atos praticados por um juiz impedido são nulos de pleno direito, conforme entendimento pacífico do STJ. Essa nulidade é absoluta e pode ser reconhecida a qualquer tempo, inclusive de ofício, sem necessidade de provocação das partes.

Essa regra está diretamente ligada à segurança jurídica e ao devido processo legal (art. 5º, LIV, CF).

2. Repercussão na Sentença

Se o impedimento for descoberto após a sentença, esta também é considerada nula, exigindo que outro magistrado refaça o julgamento. O STF já consolidou que a decisão proferida por juiz impedido viola o direito constitucional à jurisdição imparcial, sendo passível de anulação total do processo.

3. Prejuízo à Imagem e à Credibilidade do Judiciário

Além das consequências processuais, há impacto institucional. Quando um juiz atua em situação de impedimento, a confiança pública na Justiça é abalada. O respeito às regras de imparcialidade é condição essencial para que o cidadão acredite nas decisões judiciais e reconheça a legitimidade do Poder Judiciário.

4. Responsabilidade Disciplinar e Ética do Magistrado

O magistrado que deixa de se declarar impedido pode responder disciplinarmente perante a Corregedoria e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O dever de abstenção é previsto na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN, art. 36, III), que exige conduta irrepreensível e transparência absoluta.

Em casos extremos, pode haver responsabilidade civil e penal se comprovado dolo ou má-fé.

5. Efeitos Práticos para as Partes e Advogados

Para os advogados, identificar um possível impedimento é questão estratégica. Deve-se agir com prudência, reunindo provas e apresentando o pedido de afastamento com base legal, evitando alegações infundadas que possam ser interpretadas como má-fé processual (art. 80, CPC).

Jurisprudência Atual e Casos Práticos de Impedimento

A jurisprudência dos tribunais superiores desempenha papel essencial na concretização das regras sobre impedimentos judiciais. Embora o artigo 144 do CPC traga hipóteses objetivas e taxativas, cabe ao STJ e ao STF interpretar essas situações à luz dos princípios constitucionais da imparcialidade, do juiz natural e do devido processo legal.

1. Entendimento do STJ sobre a Nulidade Absoluta

O Superior Tribunal de Justiça tem consolidado o entendimento de que a atuação de juiz impedido gera nulidade absoluta, não sendo necessário provar prejuízo concreto.

Em recente julgado, o AgInt no REsp 1982736/SP (Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, 3ª Turma, julgado em 07/03/2023) reafirmou que, uma vez configurado o impedimento, “os atos processuais praticados são nulos de pleno direito, dada a ofensa ao princípio da imparcialidade judicial”.

🔹 Exemplo: Um juiz que julga ação movida por cliente de escritório de advocacia no qual seu cônjuge é sócio incorre em impedimento absoluto, ainda que outro advogado, formalmente, assine a petição. Esse entendimento foi confirmado pelo STJ no REsp 1.629.912/SP, que destacou que “a aparência de parcialidade compromete a confiança pública na Justiça”.

2. STF e o Princípio do Juiz Natural

O Supremo Tribunal Federal também reforça que o respeito às regras de impedimento está diretamente ligado ao princípio do juiz natural (art. 5º, XXXVII e LIII, da CF).

No HC 112.520/DF, o STF decidiu que a atuação de magistrado impedido fere o devido processo legal e contamina o processo desde sua origem, sendo nula toda a decisão subsequente.

🔹 Síntese do entendimento:

“A imparcialidade judicial é condição indispensável de validade da jurisdição. A presença de impedimento torna o juiz ilegítimo para o exercício da função jurisdicional no caso concreto.” (STF, HC 112.520/DF)

3. Casos Práticos no Contexto Brasileiro

Além dos precedentes dos tribunais superiores, casos em instâncias ordinárias demonstram a aplicação cotidiana das regras de impedimento:

  • Caso 1: juiz afastado por ter proferido decisão em fase anterior do mesmo processo (impedimento do art. 144, II).

  • Caso 2: anulação de sentença proferida por magistrado cujo irmão atuava como advogado em outro processo da mesma parte (impedimento do art. 144, III).

  • Caso 3: nulidade reconhecida porque o juiz era professor de instituição de ensino parte no processo (art. 144, VII).

Essas situações evidenciam que o impedimento não exige prova de parcialidade, bastando o vínculo objetivo previsto na lei.

4. O Papel das Partes e dos Advogados

A atuação vigilante das partes e dos advogados é fundamental para garantir a observância dessas regras. O profissional deve conhecer profundamente o art. 144 do CPC, investigar possíveis vínculos do magistrado e, se necessário, arguir o impedimento com fundamento e prudência, evitando alegações infundadas (art. 80, CPC).

🔹 Dica prática para advogados: incluir na petição inicial uma “declaração de ciência” sobre eventuais impedimentos conhecidos pode demonstrar boa-fé e reforçar a transparência processual.

5. A Cultura da Imparcialidade e a Confiança Pública

A jurisprudência recente evidencia uma mudança de paradigma: o foco não está apenas em evitar parcialidade real, mas também a aparência de parcialidade.

Como enfatiza Alexandre Freitas Câmara (2022), “a imparcialidade é tão essencial que o simples risco de sua violação compromete o sistema como um todo”. Portanto, o reconhecimento do impedimento é também uma garantia institucional de legitimidade democrática da Justiça.

🎥 Vídeo

Para complementar a leitura, vale conferir a explicação visual e didática do professor Ricardo Torques, no canal Processo Civil Desenhado. 

No vídeo, o autor analisa de forma clara os artigos 144 a 148 do CPC, destacando as diferenças entre impedimento e suspeição e oferecendo dicas valiosas para compreender como esses temas caem em provas e na prática forense. 

Conclusão

A análise dos impedimentos do juiz no CPC revela o compromisso do direito processual brasileiro com a imparcialidade, a ética e a legitimidade do exercício jurisdicional. Mais do que uma norma técnica, o artigo 144 do CPC/2015 representa uma verdadeira cláusula de proteção da confiança pública no Poder Judiciário.

As hipóteses legais de impedimento são objetivas, taxativas e inderrogáveis, ou seja, não dependem da vontade das partes nem do próprio magistrado. Quando respeitadas, asseguram decisões imparciais e fortalecem o Estado Democrático de Direito. Quando ignoradas, comprometem a validade do processo e a imagem da Justiça.

Em síntese:

  • O impedimento garante neutralidade e transparência.

  • A violação gera nulidade absoluta.

  • O CPC/2015 consolidou uma visão moderna e ética da jurisdição.

  • A jurisprudência reforça a intolerância com qualquer forma de conflito de interesse.

Assim, o respeito às regras de impedimento não é apenas um dever legal, é um ato de responsabilidade democrática. E, diante das complexas relações sociais e profissionais do mundo contemporâneo, cabe refletir:

O sistema judicial brasileiro está preparado para identificar e prevenir todos os riscos à imparcialidade que o futuro trará?

Para aprofundar o tema, leia outros artigos sobre Direito Processual Civil e ética judicial no portal Jurismente Aberta, que oferece análises completas e atualizadas sobre o CPC/2015 e suas aplicações práticas.

Referências Bibliográficas

  • DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil: Introdução ao Direito Processual Civil e Processo de Conhecimento. 21. ed. Salvador: JusPodivm, 2023.

  • CÂMARA, Alexandre Freitas. O Novo Processo Civil Brasileiro. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2022.

  • MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo Civil: Teoria Geral do Processo. 4. ed. São Paulo: RT, 2021.

  • BRASIL. Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015).

  • STJ. AgInt no REsp 1982736/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 07/03/2023.

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As Anotações Acadêmicas de 19/09/2026 organizam a propriedade industrial de forma clara para quem estuda Direito Empresarial. Neste artigo, você vai entender a diferença entre patente e registro, o teste de patenteabilidade, os requisitos do desenho industrial e da marca, o processo no INPI, a prioridade unionista, a licença, a cessão e o nome empresarial, com exemplos práticos.

Ação Rescisória por Incompetência Absoluta
Ação Rescisória por Incompetência Absoluta: Prazo, Requisitos e Jurisprudência do TST

A ação rescisória por incompetência absoluta desconstitui decisões proferidas por juízo sem competência para julgar a causa. Neste artigo, você entende o fundamento no art. 966, II, do CPC, o termo inicial do prazo decadencial de dois anos (art. 975 CPC), os requisitos de cabimento segundo a Súmula 100 do TST e exemplos de casos julgados envolvendo a competência da Justiça do Trabalho.

Tutela Provisória no CPC
Tutela Provisória no Processo Civil: Conceito, Requisitos e Modalidades

A tutela provisória permite ao juiz antecipar, ainda que parcialmente, uma proteção jurisdicional antes da decisão final. Neste artigo, você entende o conceito, os requisitos legais e as modalidades previstas no CPC/2015: tutela de urgência (antecipada e cautelar) e tutela de evidência, com o procedimento antecedente e incidental explicado passo a passo.

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