O que você verá neste post
Anotações Acadêmicas de 27/03/2025 trazem à tona um dos temas mais fundamentais do Direito Constitucional: os direitos políticos e sua centralidade na construção da cidadania no Brasil.
Você conhece todos os seus direitos políticos como cidadão brasileiro? Entender quem pode votar, quem pode ser votado, quais são os impedimentos legais e de que maneira o povo pode participar diretamente da vida política do país é essencial para o fortalecimento da democracia e para o exercício consciente da cidadania.
Neste conteúdo, vamos explorar, de forma clara e objetiva, os principais aspectos relacionados aos direitos políticos previstos na Constituição Federal de 1988.
Serão abordados conceitos como sufrágio, alistamento eleitoral, capacidade eleitoral ativa e passiva, inelegibilidades, voto, plebiscito, referendo, além dos importantes instrumentos de participação popular como a ação e a iniciativa popular.
Ao final da leitura, você terá uma visão completa e fundamentada sobre como os direitos políticos funcionam na prática constitucional brasileira, reforçando seu papel como cidadão ativo em um Estado Democrático de Direito.
O Que São Direitos Políticos?
Os direitos políticos, conforme previstos na Constituição Federal de 1988, são um conjunto de prerrogativas que permitem ao cidadão participar da vida política do Estado, seja por meio do voto, da candidatura a cargos eletivos ou pela atuação direta em mecanismos de democracia participativa.
Tais direitos se originam do princípio da soberania popular, consagrado no caput do art. 1º da CF/88, que estabelece: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Direitos Políticos Positivos x Negativos
Os direitos políticos se dividem em duas categorias principais:
Direitos políticos positivos: são os que asseguram a participação ativa do cidadão na vida política. Envolvem o direito de votar (capacidade eleitoral ativa), o direito de ser votado (capacidade eleitoral passiva ou elegibilidade), além do direito de propor ação popular, participar de plebiscitos e referendos e da iniciativa popular de leis.
Direitos políticos negativos: referem-se às restrições ou impedimentos legais ao exercício dos direitos políticos, como a inelegibilidade, a perda ou suspensão desses direitos em razão de determinadas situações previstas em lei (ex: condenação criminal, improbidade administrativa, etc.).
Direitos Políticos e o Estado Democrático de Direito
O exercício dos direitos políticos é a expressão máxima da cidadania, conforme previsto no art. 14 da CF/88, sendo essencial para o funcionamento do Estado Democrático de Direito.
Em uma sociedade democrática, o cidadão não apenas escolhe seus representantes, mas também fiscaliza, participa, influencia e controla o poder público, garantindo a legitimidade das instituições.
Ao compreender a estrutura dos direitos políticos, o cidadão passa a ser agente ativo da transformação social, contribuindo para uma democracia mais inclusiva, representativa e participativa.
Sufrágio e Alistamento Eleitoral
O sufrágio é o instrumento pelo qual se concretiza a soberania popular, permitindo que os cidadãos participem da vida política do Estado, seja por meio do voto (sufrágio ativo) ou da candidatura (sufrágio passivo).
A Constituição Federal de 1988, em seu art. 14, consagra esse direito como expressão fundamental da cidadania.
Tipos de Sufrágio
Historicamente, o sufrágio pode ser classificado de diversas formas:
Sufrágio censitário: limitado àqueles que detêm determinada renda ou propriedade. Exclui economicamente os menos favorecidos.
Sufrágio capacitário: condicionado ao grau de instrução ou formação intelectual do eleitor.
- Sufrágio universal: adotado no Brasil, é aquele que não estabelece distinções quanto à renda, instrução, gênero ou etnia, desde que observados os requisitos constitucionais mínimos.
No sistema jurídico brasileiro, vigora o sufrágio universal, direto e secreto, sendo o voto um direito e um dever do cidadão.
Alistamento Eleitoral
O alistamento eleitoral é o ato formal pelo qual o cidadão se registra junto à Justiça Eleitoral para adquirir a capacidade eleitoral ativa — ou seja, o direito de votar. Esse registro é fundamental para o exercício da cidadania.
Segundo o art. 14, §1º da CF/88: O alistamento é obrigatório para os maiores de 18 anos e menores de 70 anos.
É facultativo para:
- Maiores de 16 e menores de 18 anos.
- Analfabetos.
- Maiores de 70 anos.
Inalistáveis
Conforme o art. 14, §2º da Constituição, são inalistáveis:
Estrangeiros – mesmo que residentes no Brasil.
Conscritos – aqueles que prestam serviço militar obrigatório durante esse período.
Essas restrições decorrem de interesses estatais e da própria natureza do vínculo jurídico entre o cidadão e o Estado brasileiro, especialmente no que tange à soberania nacional.
No caso dos conscritos, trata-se de uma exceção ao sufrágio universal, criticada por diversos estudiosos.
No artigo “O impedimento do voto dos conscritos”, a professora Gabrielle Santana Garcia argumenta que essa vedação, embora prevista no texto constitucional, cria um paradoxo democrático, uma vez que o cidadão é privado de um direito político fundamental justamente no momento em que está obrigatoriamente servindo à Nação.
Para ela, tal restrição enfraquece a cidadania e não encontra justificativa constitucional razoável dentro do modelo democrático de 1988.
Capacidade Eleitoral: Ativa e Passiva
A capacidade eleitoral é a aptidão jurídica para o exercício dos direitos políticos, e ela se divide em duas modalidades: ativa e passiva.
Capacidade Eleitoral Ativa
A capacidade eleitoral ativa é o direito de votar e está diretamente ligada ao princípio do sufrágio universal. Para exercê-la, o cidadão deve atender aos seguintes requisitos:
Ter nacionalidade brasileira.
Ter no mínimo 16 anos (voto facultativo entre 16 e 18).
Estar alistado eleitoralmente.
Estar no pleno gozo dos direitos políticos (isto é, não ter esses direitos suspensos ou perdidos).
Cumpridos esses requisitos, o cidadão pode participar das eleições e demais mecanismos de consulta popular, como plebiscitos e referendos.
Capacidade Eleitoral Passiva (Elegibilidade)
Já a capacidade eleitoral passiva é o direito de ser votado, ou seja, de concorrer a cargos eletivos. É também chamada de elegibilidade e está prevista no art. 14, §3º da CF/88.
Para que o cidadão seja elegível, deve preencher os seguintes requisitos:
- Nacionalidade brasileira.
- Pleno gozo dos direitos políticos.
- Alistamento eleitoral regular.
- Filiação partidária – é vedada a candidatura avulsa no Brasil.
- Idade mínima, conforme o cargo pretendido:
Cargo | Idade mínima |
---|---|
Vereador | 18 anos |
Deputado, Prefeito | 21 anos |
Governador, Vice-Governador | 30 anos |
Presidente, Vice, Senador | 35 anos |
A capacidade eleitoral passiva está intrinsecamente vinculada à ativa — ou seja, ninguém pode ser eleito se não tiver, antes, o direito de votar.
Condições de Elegibilidade no Brasil
A elegibilidade é a manifestação prática da capacidade eleitoral passiva, ou seja, o direito de ser votado, de se candidatar e ocupar cargos públicos eletivos.
A Constituição Federal de 1988 trata das condições de elegibilidade no seu artigo 14, §3º, estabelecendo os critérios indispensáveis para que o cidadão possa concorrer a um cargo eletivo.
Essas condições funcionam como um filtro jurídico que busca garantir que apenas cidadãos plenamente aptos possam exercer funções públicas representativas, zelando pela moralidade e legitimidade do processo eleitoral.
Requisitos Constitucionais para Elegibilidade
De acordo com o art. 14, §3º da CF/88, são condições de elegibilidade:
Nacionalidade brasileira
A elegibilidade é exclusiva dos brasileiros, natos ou naturalizados. Estrangeiros, mesmo que residentes no Brasil, não podem se candidatar a cargos eletivos.
Pleno gozo dos direitos políticos
O candidato não pode estar com os direitos políticos suspensos ou perdidos, como ocorre, por exemplo, em casos de condenação criminal transitada em julgado ou por atos de improbidade administrativa (art. 15 da CF).
Alistamento eleitoral
A inscrição regular na Justiça Eleitoral é requisito essencial tanto para votar quanto para ser votado. Sem o alistamento, o cidadão não poderá se candidatar.
Filiação partidária
No Brasil, o sistema eleitoral exige que o candidato esteja filiado a um partido político. A Constituição veda expressamente as candidaturas avulsas, mesmo que o indivíduo esteja em pleno gozo dos direitos políticos e tenha apoio popular.
Essa regra fortalece o sistema representativo e a institucionalização partidária.
Idade mínima, conforme o cargo pretendido
A Constituição estabelece faixas etárias mínimas, variando de acordo com a complexidade e responsabilidade dos cargos. A tabela abaixo resume:
Cargo | Idade mínima exigida |
---|---|
Vereador | 18 anos |
Deputado Estadual/Federal, Prefeito | 21 anos |
Governador e Vice-Governador | 30 anos |
Presidente, Vice-Presidente e Senador | 35 anos |
A idade é considerada no momento da posse, e não no registro da candidatura, conforme entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Requisitos de Elegibilidade e Democracia Representativa
Essas exigências visam assegurar que o indivíduo que concorre a um cargo público possua maturidade política, comprometimento com a ordem constitucional e vínculo efetivo com o sistema político, representado pela filiação partidária.
A filtragem constitucional das condições de elegibilidade não restringe direitos, mas qualifica o processo democrático, estabelecendo uma linha de corte entre o eleitor e o elegível.
Portanto, trata-se de um mecanismo de proteção da legitimidade democrática, onde a escolha do povo recai sobre aqueles que previamente demonstram estar aptos a exercer o mandato.
Inelegibilidades: Absolutas e Relativas
Mesmo que um cidadão cumpra todas as condições de elegibilidade previstas no art. 14, §3º da Constituição Federal, ele ainda poderá ser impedido de concorrer a cargos eletivos caso esteja enquadrado em alguma das hipóteses de inelegibilidade.
As inelegibilidades atuam como restrições à capacidade eleitoral passiva e têm como finalidade proteger a moralidade administrativa, a isonomia entre os candidatos e a legitimidade do processo eleitoral.
Elas estão previstas nos §§ 4º a 7º do art. 14 da CF/88, bem como na Lei Complementar nº 64/1990 (Lei das Inelegibilidades), com diversas atualizações, especialmente após a Lei da Ficha Limpa (LC nº 135/2010).
Classificação das Inelegibilidades
As inelegibilidades são classificadas em duas categorias principais:
Inelegibilidades Absolutas
As inelegibilidades absolutas impedem o indivíduo de se candidatar a qualquer cargo eletivo, independentemente das circunstâncias.
Exemplos de hipóteses absolutas:
- Estrangeiros (por falta de nacionalidade brasileira).
- Conscritos (militares em serviço obrigatório).
- Analfabetos (por ausência de instrução mínima para o exercício da função pública).
Essas restrições decorrem de cláusulas constitucionais diretas e não admitem exceções.
Inelegibilidades Relativas
As inelegibilidades relativas dependem de determinadas circunstâncias pessoais ou funcionais do candidato e do cargo pretendido. Elas não impedem a candidatura a todos os cargos, mas apenas em casos específicos, conforme as situações descritas a seguir.
Reeleição de chefes do Poder Executivo – Art. 14, §5º
Um Presidente da República, Governador ou Prefeito pode ser reeleito apenas uma única vez para o mesmo cargo. Após dois mandatos consecutivos, a Constituição veda uma nova candidatura imediata para o mesmo cargo.
Necessidade de desincompatibilização – Art. 14, §6º
Determinados ocupantes de cargos públicos precisam se afastar de suas funções dentro de prazos legais antes das eleições, para evitar abuso de poder, desvio de finalidade e uso indevido da máquina pública.
Exemplo: ministros de Estado, secretários, membros das Forças Armadas, entre outros, devem se afastar com prazo mínimo de 3 a 6 meses antes do pleito, dependendo do cargo almejado.
Inelegibilidade reflexa (nepotismo eleitoral) – Art. 14, §7º
Cônjuges e parentes em até segundo grau (por consanguinidade, afinidade ou adoção) do titular do cargo de chefe do Executivo (Presidente, Governador ou Prefeito) são inelegíveis no território de jurisdição do titular, salvo se este estiver concorrendo à reeleição.
Exemplo: o filho de um prefeito não pode concorrer a vereador no mesmo município, a menos que o prefeito esteja se candidatando à reeleição.
Renúncia estratégica – vedação à fraude eleitoral
Caso um titular de cargo do Executivo renuncie ao cargo durante o segundo mandato para tentar burlar a regra da reeleição ou da inelegibilidade reflexa, essa renúncia não impede a inelegibilidade, pois será considerada fraude à norma constitucional.
Democracia Direta: Plebiscito e Referendo
A Constituição Federal de 1988 adotou como um de seus pilares o Estado Democrático de Direito, no qual o povo não exerce apenas o poder por meio de representantes eleitos, mas também participa diretamente das decisões políticas, nos termos do art. 14, I e II da CF/88.
Essa participação direta do povo nas decisões relevantes do Estado caracteriza-se como democracia direta e ocorre, principalmente, por meio de três instrumentos constitucionais: plebiscito, referendo e iniciativa popular de leis.
Neste item, abordaremos os dois primeiros.
Previsão Constitucional
Conforme o art. 14 da CF/88:
“A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
I – plebiscito;
II – referendo;
III – iniciativa popular.”
O plebiscito e o referendo são formas de consulta popular, utilizadas para que o povo se manifeste sobre questões políticas, jurídicas ou administrativas de grande relevância nacional, regional ou local.
Plebiscito
O plebiscito é uma consulta prévia ao povo, realizada antes da criação ou aprovação de uma norma ou ato legislativo ou administrativo. Seu objetivo é autorizar ou não determinada medida política, sendo o resultado vinculante para os poderes constituídos.
Exemplo: O plebiscito de 1993, que consultou os brasileiros sobre a forma (República ou Monarquia) e o sistema de governo (Presidencialismo ou Parlamentarismo).
Características do plebiscito:
- Realizado antes da medida legislativa.
- A população vota “sim” ou “não” à proposta apresentada.
- Só pode ser convocado pelo Congresso Nacional, mediante decreto legislativo.
Referendo
O referendo, por sua vez, é uma consulta posterior à edição de uma norma legal ou ato legislativo. O povo é chamado a ratificar (aprovar) ou rejeitar o que já foi decidido pelo Poder Legislativo.
Exemplo: O referendo de 2005, em que a população decidiu se deveria ser proibida a comercialização de armas de fogo e munições no Brasil. A maioria optou pelo “não”, rejeitando a proibição.
Características do referendo:
- Realizado depois que a norma é aprovada.
- O povo exerce o poder de veto popular.
- Também deve ser autorizado pelo Congresso Nacional.
Finalidades da Democracia Direta
O plebiscito e o referendo reforçam a legitimidade democrática, aproximando o povo das decisões relevantes do Estado. Funcionam como ferramentas de controle popular sobre o poder legislativo, contribuindo para a transparência, participação e responsabilidade institucional.
Esses mecanismos também servem como alternativa ou complemento à representação tradicional, dando voz direta ao eleitorado e criando oportunidades de debate nacional sobre temas sensíveis e complexos.
Limitações e Regramento Legal
A regulamentação desses institutos está prevista na Lei nº 9.709/1998, que trata da forma como devem ser convocados, organizados e executados plebiscitos e referendos. De acordo com a lei:
- A proposta pode partir de qualquer membro do Congresso Nacional, do Presidente da República ou da sociedade civil (por meio da iniciativa popular).
- A execução é conduzida pela Justiça Eleitoral.
- A participação do eleitor é obrigatória, nos mesmos moldes das eleições regulares.
Ação Popular como Instrumento de Controle Cidadão
A ação popular é um dos mais importantes instrumentos de democracia participativa e controle social da Administração Pública. Trata-se de uma ação judicial proposta por qualquer cidadão com o objetivo de proteger interesses públicos ameaçados por atos lesivos praticados por agentes ou órgãos do poder público.
Sua previsão está no art. 5º, inciso LXXIII da Constituição Federal de 1988, que dispõe:
“Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.”
Natureza Jurídica e Finalidade
A ação popular possui natureza constitucional e legal (regulamentada pela Lei nº 4.717/1965) e visa assegurar que os bens e valores públicos não sejam prejudicados por atos ilegais ou imorais praticados por agentes administrativos.
É um verdadeiro instrumento de cidadania ativa, pois permite que o indivíduo, agindo em nome próprio, defenda o interesse coletivo contra o abuso de poder, ilegalidade, desvio de finalidade ou omissões administrativas.
Quem pode propor?
Somente pode propor a ação popular quem for cidadão, ou seja, quem tiver capacidade eleitoral ativa. Isso significa estar regularmente alistado como eleitor.
Portanto, estrangeiros, menores de 16 anos e pessoas com direitos políticos suspensos não têm legitimidade ativa.
Objeto da Ação Popular
A ação popular tem como objeto a anulação de atos administrativos ilegais ou lesivos aos seguintes bens:
- Patrimônio público (bens e recursos do Estado).
- Entidades de que o Estado participe (empresas públicas, sociedades de economia mista etc.).
- Meio ambiente.
- Moralidade administrativa.
- Patrimônio histórico e cultural.
A lesividade pode decorrer de ato comissivo (ação) ou omissivo (omissão), desde que haja violação ao interesse público ou à legalidade.
Gratuidade e Boa-Fé
Como forma de incentivo à participação popular e à fiscalização cidadã, o autor da ação popular não arca com custas judiciais nem com honorários advocatícios, salvo em caso de má-fé. Isso evita o desestímulo à propositura de ações legítimas e protege o autor de represálias judiciais indevidas.
A exigência de boa-fé também funciona como filtro ético e jurídico, prevenindo o uso da ação popular como ferramenta de perseguição política, pessoal ou ideológica.
Importância da Ação Popular no Controle Democrático
A ação popular fortalece o princípio republicano, ao permitir que o cidadão comum tenha voz ativa na fiscalização da gestão pública. Ela contribui para o combate à corrupção, ao desperdício de recursos públicos e às práticas administrativas lesivas ao interesse coletivo.
Além disso, atua como complemento ao controle exercido pelos Tribunais de Contas, Ministério Público e Poder Legislativo, ampliando os mecanismos de vigilância democrática e transparência.
Exemplos Práticos
- Ação para anular contrato público superfaturado ou sem licitação.
- Ação contra nomeação de parente para cargo em comissão (nepotismo).
- Ação para impedir construção irregular em área de preservação ambiental.
- Ação para responsabilizar administradores por danos ao erário público.
A ação popular é, portanto, um símbolo da cidadania ativa, onde o cidadão atua como fiscal do Estado e defensor da moralidade e da legalidade administrativa.
Portanto, é uma das ferramentas mais eficazes da Constituição para garantir a efetividade dos princípios republicanos e democráticos.
Iniciativa Popular de Leis
A iniciativa popular é uma forma de democracia direta prevista no art. 14, III da Constituição Federal de 1988, que permite ao povo propor projetos de lei diretamente ao Congresso Nacional, sem necessidade de intermediários políticos.
Esse mecanismo garante a participação ativa do cidadão no processo legislativo, ampliando os canais de representação e permitindo que demandas sociais relevantes cheguem ao Parlamento.
Esse processo ainda carece de regulamentação mais detalhada para tornar sua tramitação mais eficaz e acessível.
Previsão Constitucional e Regulamentação
Segundo o art. 61, §2º da CF/88, um projeto de lei de iniciativa popular deve atender aos seguintes requisitos:
- Ser subscrito por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional.
- Esse 1% deve estar distribuído por pelo menos cinco estados.
- Em cada estado, é necessário haver pelo menos 0,3% do eleitorado local.
- As assinaturas devem vir acompanhadas de nome completo, número do título de eleitor e município de votação.
Esse processo ainda carece de regulamentação mais detalhada para tornar sua tramitação mais eficaz e acessível.
Finalidade e Importância
A iniciativa popular reforça os princípios da soberania popular e da cidadania ativa, permitindo que a sociedade civil organize-se coletivamente para propor leis que atendam a demandas sociais reais, muitas vezes ignoradas pelo sistema político tradicional.
Exemplo: Lei da Ficha Limpa
Um dos maiores símbolos da efetividade da iniciativa popular foi a criação da Lei Complementar nº 135/2010, conhecida como Lei da Ficha Limpa. O projeto nasceu de um movimento liderado pela sociedade civil, que reuniu mais de 1,6 milhão de assinaturas para propor regras mais rígidas de inelegibilidade de candidatos condenados por crimes graves ou atos de improbidade.
A Lei da Ficha Limpa transformou o cenário político brasileiro, criando novos critérios de moralidade e responsabilidade para a elegibilidade.
Desafios
Embora exista previsão constitucional, a iniciativa popular ainda enfrenta obstáculos práticos, como:
- Burocracia no recolhimento e validação das assinaturas.
- Ausência de um trâmite legislativo facilitado e transparente.
- Falta de incentivo institucional para sua utilização.
Conclusão
As Anotações Acadêmicas de 27/03/2025 nos oferecem uma visão clara e estruturada sobre os direitos políticos no Brasil, fundamentais para o exercício pleno da cidadania em um Estado Democrático de Direito.
Ao longo deste artigo, foi possível compreender os conceitos constitucionais que envolvem o sufrágio, o alistamento eleitoral, as capacidades eleitorais ativa e passiva, as condições de elegibilidade e as hipóteses de inelegibilidade.
Também analisamos os casos de perda e suspensão dos direitos políticos, o valor do voto como direito e dever cívico, e os mecanismos de democracia direta, como o plebiscito, o referendo, a ação popular e a iniciativa popular de leis. Estes instrumentos ampliam a participação da população na vida política do país e demonstram que a cidadania não se limita ao ato de votar.
Por fim, refletimos sobre os desafios que ainda existem para tornar a participação popular mais efetiva, acessível e respeitada dentro das estruturas formais do poder.
Portanto, fortalecer os direitos políticos é fortalecer a democracia — e esse processo começa pela educação constitucional e pelo conhecimento crítico, como propõem as discussões aqui desenvolvidas com base nas suas anotações de aula.
Referências bibliográficas
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